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Desaprendendo a nadar -parte 1

Quando eu tinha 5 ou 6 anos, mudei de turma na natação. Saí do grupo dos pequenos, que faziam brincadeiras com água numa piscina rasa. No grupo dos maiorzinhos, aula era aula – e a piscina não dava pé. Vários dos meus colegas de classe na escola já estavam nessa turma, e parecia natural que eu fosse promovido, Na turma dos pequenos, havia uma professora, carinhosa e sorridente com todas as crianças. Na dos maiores, o professor era sujeito levemente roliço, do tipo que deixa o cabelo liso escorrer pela lateral em torno da careca. Tinha cara de sério e, se bem me lembro, o nome dele era Roberto.

Na primeira aula, entrei n’água e, com medo, segurei na borda. Roberto passou a pranchinha a todos os alunos e pediu que segurássemos nela, enquanto batíamos perna até o outro lado da piscina. Um exercício banal, conhecido por todos aqueles que nadam. Eu estava apavorado. Roberto apitou. Hesitei, enquanto meus colegas partiram instantaneamente espirrando água com suas pernada. Roberto insistiu comigo. Assim que larguei a borda para segurar na prancha, afundei. Naquele tempo não usávamos óculos de nadar. Eu estava acostumado a abrir os olhos embaixo d’água. Nos instantes em que meu corpo descia ao fundo e eu engolia água, vi lá debaixo o desespero de Roberto, que pulou rápido na piscina para impedir que eu me afogasse.

Na semana seguinte, estava de volta á turma dos pequenos.

Esportes nunca foram meu forte quando criança. Fora d’água, eu usava óculos (ainda uso), era tímido (ainda sou), quieto (sou menos) e ótimo aluno (bem menos). Quando tinha de ir para a escola de esportes do clube, ia a contragosto. Alguns colegas progrediam na natação. Acordavam para treinar com o céu ainda escuro, para dar tempo de, na volta da piscina, pegar a primeira aula de manhã na escola. Competiam, viajavam para disputar provas em cidades e países distantes, de onde traziam medalhas, uniformes e palavras que para mim faziam parte de uma sociedade secreta, uma espécie de maçonaria daqueles que acordavam às quatro e meia da manhã.

Àquela altura eu já conseguia nadar. Minha mãe matriculara minha irmã e eu num curso de natação vespertino, cujas aulas eram dadas na piscina de uma escola particular no bairro Santana. Chegávamos quando as aulas regulares estavam terminando, a tempo de ouvir a criançada cantando o hino da escola. Íamos para a piscina, onde um professor bigodudo chamado Douglas aparentemente conseguia fazer qualquer criança vencer o medo e as dificuldades. Com o tempo, bater perna com a mão na pranchinha virou rotina; Aos 9 anos, quando um primo mais velho me levou ao fundo do mar em Santos e me largou sozinho, não afundei. Conseguia me manter à flor d’água, dava braçadas, batia as pernas. A partir daquele dia, podia dizer a todos que sabia nadar.

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